
Sou uma apaixonada por maquiagem. Uma vez, escrevi isso aqui no blog:
“Somos seres humanos. Temos espinhas, olheiras, pés de galinha, rugas, verrugas, pintas, sardas, pelos faciais, um nariz torto aqui, maiorzinho acolá, olhos separados ou juntos demais. Nossa pele pode não ser do jeito que a gente quer, mas é a pele que a gente habita, e não existe nada mais lindo do que estar confortável na sua própria pele: autoconfiança emana dos poros, isso é comprovadamente sexy.
Coloquem na cabeça de vocês que maquiagem, antes de tudo, é diversão, é ressaltar aquilo que a gente acha mais bonito, dar uma disfarçada naquilo que não tá favorecendo no dia… sem stress, sem neurose, sem achar que o mundo vai acabar porque você não tem o corretivo no tom exato da sua olheira ou da sua espinha.”
Não mudo uma vírgula do que eu disse, e meio que resolvi tocar nesse ponto sensível: o exagero, a neurose, a busca desmedida por “perfeição”.
Dia desses, me enviaram o link de uma maquiadora que ensinava às pessoas a como se maquiarem “corretamente”. Confesso que essas coisas do tipo certo X errado me causam arrepio de cara. Como assim, certo e errado, a liberdade fica onde? Enfim. Assisti à maquiadora ensinar como as pessoas se maquiavam errado antes e como aprenderam a se maquiar, depois do blog dela. E é aquilo, né, assisti até o fim, bateu uma impressão forte e tive que escrever.
Logo de cara, a maquiadora passava uma quantidade mínima de base líquida de um lado do rosto (uma base da mary kay, bem elogiada por ela no vídeo – concordo, acho o produto super bom mesmo), pra mostrar como as pessoas faziam errado antes de aprenderem “o certo” com ela.
Na sequência, depois de usar uma quantidade generosa (mentira, a quantidade era abissal) de base líquida que já possui uma cobertura significativa – studio fix fluid, da mac, rolou uma sequência nervosa de base em pó – studio fix powder plus, também da mac (sim, base em cima de base) no rosto. Enquanto passava, o ensinamento era:
“ESSE É O CERTO, USAR UMA PLASTRA DE BASE. ESSA PELE DE BONECA QUE VOCÊS VÊEM, QUE VOCÊS TANTO GOSTAM, ELA TEM UM MOTIVO (…) E MUITO, MUITO PÓ GENTE, QUANDO VOCÊS ACHAREM QUE ESTÁ BOM, PASSEM MAIS UMAS TRÊS, QUATRO VEZES.”.
Não me aguento: minha aflição, de ver alguém enfiando base líquida + base em pó numa só cara era enorme. Só conseguia pensar: mas COMO a pele vai respirar, gente? É maquiagem ou é máscara de base?
Quanto mais eu assistia ao tal vídeo, mais pensava em como eu preferia me maquiar errado. Ao final do vídeo, a moça, que é bonita, estava irreconhecível, pela maquiagem pesada que usou: sim, essa maquiagem é pesada. Não concorda? Então me responde como é possível a gente pensar em naturalidade e viço da pele quando acabamos de depositar “muito, muito pó, gente”, em cima de uma “plastra” de base?
Não estou dizendo que é feio. Estou dizendo que não é pra mim. E digo mais: eu, sinceramente, achei que a moça ficou mais bonita, mais natural, com mais cara de gente na parte do antes, sem se esconder.
Achei interessante, no meio do caminho, ela ter utilizado a expressão “pele de boneca que vocês tanto gostam”. Vontade? Necessidade? Inconsciente coletivo?
Taí uma coisa que me causa desconforto. Não vou fazer aqui uma digressão sobre bonecas, Barbies, paranóia da beleza impossível ou sobre como a mídia influencia a mulherada na busca pelo padrão inatingível de beleza. Mensagem dada: pra um bom entendedor, um pingo é letra.
É normal querer disfarçar, dar uma escondida? Sim, lógico. Quando alguma coisa me incomoda, é ao corretivo que eu recorro, quando ando pálida, me jogo no blush, e quando o olhar está cansado, dá-lhe rímel e lápis bege na linha d’água! Quando quero me divertir, me enfeitar, recorro à maquiagem (meus vídeos não me deixam mentir, né?): isso tudo faz parte de querer se sentir bem.
Acho que tem uns bons degraus de diferença aí, entre o disfarçar e o parecer uma boneca, escondendo toda sua pele atrás de tanto produto (não quero fazer uma digressão [parte 2], mas imagina o entupimento dos poros?). Pra quê parecer uma boneca? Pra quê se esconder? Do quê, afinal?
A gente é gente. Não é, gente? E gente é diferente de boneca, das mulheres photoshopadas das revistas, dos padrões inatingíveis de beleza. Gente tem “defeitos”, que tornam gente tão interessante. Gente. Gente! Geeeeeeente!!!
E temos “defeitinhos” justamente porque somos mulheres, e não bonecas. Espinhas, olheiras, cravos, rugas. Oleosidade, ressecamento, melasma, rosácea, vitiligo. Enumere os “problemas”, todo mundo já passou por algum deles em algum momento na vida.
Isso me fez lembrar do blog de uma editora de beleza brasileira, que não tem a pele mais perfeita do mundo (ela é gente, oras!): volta e meia tem espinhas, uma manchinha aqui e acolá, e olheiras. Mas sabe fazer uma pele leve, chic, fina e bem acabada como ninguém: e isso tudo sem parecer uma boneca empoada.
Acho, do fundo do coração, que se esconder demais atrás de maquiagem, ter medo, pânico ou aflição de que alguém te veja sem maquiagem pode ser um alerta de que alguma coisa não vai bem. Nossos “defeitos”(como a gente enxerga nossos traços característicos) dizem coisas sobre nós, e uma coisa é querer disfarçar algo que não nos agrade, outra coisa é entrar na paranóia de não poder ser vista sem sua armadura estética.
Não consigo evitar pensar que essas armaduras estéticas são criadas pra nos proteger DO e nos adequar AO padrão inatingível de beleza. Triste isso, né, gente? No mais, continuo amando maquiagem, usando pouco corretivo, não retocando minhas fotos pro blog (se encontrarem uma olheira/espinha mal coberta, tenham paciência comigo: sou gente!), e sendo feliz.
Ah, e me maquiando do jeito “errado”, claro. ♥